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Teatro Clássico Assinala Dia da Latinidade em Odrinhas
Por SUSANA QUARESMA
Quinta-feira,
16 de Maio de 2002
Museu Arqueológico
tem escassez de meios
Mais de trezentos alunos de escolas do concelho de
Sintra assistiram ontem, ao ar livre, à representação de uma
peça teatral de Eurípides. Foi uma ocasião para abrir ao exterior
um espaço municipal privilegiado
"Oh Luís, aquela miúda do 'piercing'
na sobrancelha ainda não tirou os olhos de ti!". No pátio do
Museu de Odrinhas, em Sintra, debaixo de um sol abrasador, a
plateia de 319 alunos do ensino secundário de escolas do concelho,
que ontem de manhã aguardava com alguma impaciência o início
da representação de "Os Heraclidas", de Eurípides, enganava
a espera com as "bocas" do costume. "Vê as coisas pela positiva:
pelo menos não tens aulas", argumentava uma das presentes, momentos
antes do início do espectáculo que assinalou o Dia da Latinidade.
Os risinhos da praxe começaram por fazer coro com as palavras
iniciais dos actores. "Eh pá, isto é tudo malta do Norte", comentavam
alguns perante o sotaque acentuado de alguns protagonistas.
Com o desenrolar da trama, os ânimos sossegaram e os jovens
lá se concentraram nas palavras de Eurípides. No final, apesar
dos aplausos de pé, as opiniões dividiam-se. "Não percebi muito
bem o texto. Às vezes não se ouvia nas melhores condições. Mas
foi fixe. E não tivémos aulas!", dizia João, aluno do 11.º ano.
"Foi giro. E apesar de ser teatro clássico o tema até era actual.
Hoje em dia também há muitos problemas com os refugiados", acrescentava
Ana, também aluna do 11.º ano.
A actualidade dos textos clássicos é um dos segredos do sucesso
das representações do Thiasos, o grupo de teatro da Faculdade
de Letras de Coimbra, que percorre todo o país com os seus espectáculos
com a missão de divulgar o teatro clássico grego e romano. "Em
todos os locais onde representamos temos sempre uma grande adesão
do público que, de um modo geral, compreende bem o texto", referiu
ao PÚBLICO José Ribeiro Ferreira, docente do Instituto de Estudos
Clássicos de Coimbra. Para o professor, esta é uma boa forma
de fornecer meios pedagógicos aos professores. "Alguns dos problemas
modernos estão referenciados nestes textos, que permanecem actuais
e transmitem uma mensagem", sublinhou.
As comemorações do Dia da Latinidade, assinalado um pouco por
todos os países latinos, resultaram da organização conjunta
dos ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Educação, da
União Latina e do Instituto Português da Juventude e contaram
com a colaboração da Liga dos Amigos de Conimbriga, do Instituto
de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra e da Câmara
Municipal de Sintra. A escolha do teatro clássico para assinalar
esta data é explicada por valores comuns. "A alma da latinidade
é romana. A cultura greco-romana tem um conjunto de valores
que estão presentes nesta peça, mas que também representam grande
parte da nossa cultura ocidental", explica José Ribeiro Ferreira.
Para o encenador do Thiasos, Delfim Leão, a escolha de espaços
como o do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, na zona
rural do concelho de Sintra, é uma opção pensada do grupo. "Procuramos
trazer as pessoas a espaços privilegiados, aliando isso à prática
teatral", salientou.
Já o director do museu, Cardim Ribeiro, que exultou com o "casamento
perfeito" entre o teatro clássico e aquele espaço museológico,
tem esperanças que este Dia da Latinidade tenha assinalado o
início de um novo ciclo. "Esperamos que isto seja o início da
prática de actividades regulares viradas para o público. Até
agora, isso não tem acontecido por absoluta falta de meios,
já que o Museu de Odrinhas existe no limiar da sobrevivência",
queixou-se. As comemorações do Dia da Latinidade prosseguiram
durante a tarde de ontem, com a realização de um colóquio na
Faculdade de Letras. Na ocasião foi atribuído o Prémio da Latinidade
ao cineasta Manoel de Oliveira.
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