Terrenos da Casa das Selecções Revelam Necrópole Romana
Por LUÍS FILIPE SEBASTIÃO
Terça-feira, 30 de Setembro de 2003

Sete sepulturas e uma estrutura que se supõe parte de um sistema de águas são alguns dos vestígios que arqueólogos de Sintra puseram a descoberto numa parte dos terrenos, em Almargem do Bispo, destinados ao futuro centro de estágios da Federação Portuguesa de Futebol.

A existência de vestígios arqueológicos, do paleolítico e da época romana, no Casal do Rebolo é conhecida desde a década de 1980. Apesar disso, a autarquia sintrense decidiu no anterior mandato doar aqueles terrenos à Federação Portuguesa de Futebol para instalar a sua sede e centro de estágios (ver caixa). No início deste ano, após várias sondagens na área destinada à Casa das Selecções, os técnicos do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (MASMO) concluíram que os vestígios romanos encontrados "não constituem em caso algum impedimento determinante" à concretização do projecto, por se concentrarem apenas em cerca de 20 por cento do terreno.

No laboratório do MASMO procede-se ao tratamento do espólio recolhido nas primeiras campanhas arqueológicas - como, por exemplo, diversos vasos, uma ânfora, praticamente inteira, com fundo plano, e uma lucerna. Enquanto isso, no terreno, os trabalhos puseram a descoberto sete sepulturas: seis de inumação e uma de incineração. Os restos incinerados remontam ao século I, enquanto que os seis esqueletos datarão de entre os séculos II e III.

Segundo Alexandre Gonçalves, arqueólogo do MASMO que coordena as escavações, o último esqueleto descoberto é de uma criança, da qual ainda não se sabe a idade. As ossadas encontram-se associadas a muitos pregos o que pressupõe um enterramento com caixão e de um período "mais tardio" do que os restantes. À semelhança de outras sepulturas possuía uma lucerna e um vaso.

Muito próximo foi escavado o primeiro esqueleto do sexo feminino - o segundo encontrado numa fossa simples -, desprovido de qualquer espólio. Uma sepultura delimitada e coberta por lajes guardava os ossos de um indivíduo que Nathalie Ferreira, antropóloga que colabora nas escavações, explica ser do sexo masculino devido à sua constituição robusta, embora de estatura mediana com os seus 1,60 metros. "O esqueleto encontra-se muito fragilizado", nota a antropóloga, acrescentando que "não houve muito cuidado [no enterramento], pois o corpo foi completamente comprimido para caber na sepultura". Um braço descaiu para a zona do tórax.

A dentição, segundo Nathalie Ferreira, apresentava "um desgaste severo", com perda de dentes em vida, mas sem cáries. Na sepultura estavam depositadas lucernas, dois vasos de cerâmica e uma taça de vidro. No pulso possuía um objecto metálico, possivelmente uma pulseira. Numa outra sepultura, um esqueleto ostentava uma moeda no ombro, bem conservada, mas que ainda não passa de um pedaço de metal com o relevo oculto pela sujidade dos tempos.

Paralelo importante com Freiria

A maioria das sepulturas encontram-se viradas para poente, com vista para o longínquo recorte da serra de Sintra. Apenas um dos enterramentos se encontra orientado no sentido Norte-Sul. Junto à necrópole foi escavada uma estrutura composta por dois tanques paralelos, o principal com cerca de 1,30 por 2,05 metros e revestido nos lados a argamassa. Uma vez que possui aberturas para entrada e saída de águas, os arqueólogos inclinam-se para "a hipótese de se tratar da mãe de água" de um aqueduto que servisse a "villa" romana.

O director do MASMO, José Cardim Ribeiro, esclarece que a zona das escavações corresponde ao espaço rústico da "villa" e que, em termos de organização espacial, a localização da necrópole do Casal do Rebolo encontra paralelo com a estação arqueológica romana de Freiria, no concelho de Cascais. Em ambos os casos, o cemitério (a "cidade da morte") localiza-se para lá de uma linha de água, aspecto que o investigador considera relevante para ajudar a perceber onde se podem situar as necrópoles ainda por descobrir de outras "villae" conhecidas mas por escavar.

O arqueólogo sublinha que, dos 20 por cento de área reservada para escavações, a necrópole corresponde a cerca de dez por cento, que também será "libertada em breve". Nos restantes 80 por cento, disponibilizados para as obras da Casa das Selecções, Alexandre Gonçalves adianta que foram recolhidos "alguns vestígios do paleolítico, mas em mau estado, porque o solo foi muito revolvido devido à lavoura intensa" praticada na zona. Entre o espólio figura um braçal de arqueiro datado do calcolítico.

José Cardim Ribeiro sublinha que "a parte urbana da 'villa' está debaixo do actual casal", que será integrado no projecto da Casa das Selecções. Falta saber se subsistem, ou não, pavimentos em mosaico da antiga casa senhorial, como poderão sugerir as várias centenas de tesselas (cubos) policromas avulsas recolhidas nas primeiras sondagens, e que apontam para o prolongamento da estação arqueológica para fora dos terrenos da propriedade do Rebolo.

Sintra Reafirma Que Centro de Estágios É Prioritário
Por L.F.S./M.V.
Terça-feira, 30 de Setembro de 2003

A Casa das Selecções arrancou mediante um protocolo assinado, em 1999, entre a então presidente da Câmara de Sintra, Edite Estrela, e o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Gilberto Madail.

O projecto, composto pela sede e museu da federação, campos de treino e espaços polidesportivos, tarda em sair do papel não apenas devido aos vestígios arqueológicos, que desde o principio deste ano "libertaram" 80 por cento da área, mas também por integrar terrenos na Reserva Ecológica Nacional (REN). Uma classificação que obriga a determinadas condições para a viabilidade do empreendimento, a primeira das quais passou pela sua declaração de interesse público.

Amândio de Carvalho, vice-presidente da FPF, declarou antes ao PÚBLICO que os 20 por cento de área vedada à construção correspondem "à zona de entrada, o que obrigava a uma alteração do projecto". Na altura, estavam em cima da mesa duas alternativas: "Manter os achados no sítio onde foram encontrados e fazer da área uma zona protegida, ou transferir os achados para Odrinhas".

O director do museu, José Cardim Ribeiro, desdramatiza e esclarece que a maioria dos vestígios, nomeadamente da necrópole, serão recolhidos em Odrinhas. Apenas as estruturas do alegado sistema de águas da "villa", bem como o lagar e alguns elementos do casal, deverão ser preservados, mas o arqueólogo defende a sua integração na Casa das Selecções: "Pode ser um óptimo exemplo de conservação e defesa do património, compatibilizado com um projecto que interessa ao concelho".

Os presidentes da FPF, Gilberto Madail, e da autarquia sintrense, Fernando Seara, visitaram na semana passada o Casal do Rebolo, acompanhados pelo vereador Luís Duque, a quem Seara confiou o comando do processo. O vereador ressalvou que, apesar da "salvaguarda da questão arqueológica", a câmara mantém "vontade política em desenvolver o projecto", "prioritário" para município. Para tanto deverão ser articulados procedimentos com as várias entidades envolvidas.

Gilberto Madail apontou na ocasião a necessidade de ultrapassar as dificuldades resultantes dos pareceres de várias entidades, que têm atraso o projecto. É o caso dos pareceres da Direcção Regional de Ambiente e Ordenamento do Território, devido às condicionantes da REN, e do Instituto Nacional de Desporto. Para já, Luís Duque afiança que a construção do acesso "vai começar dentro de um mês".